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SENSU TALKS #45 – O Diálogo como Linha Editorial: a experiência de Andresa Boni

  • SENSU
  • 13 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

No episódio #45 do SENSU TALKS, transmitido em 12 de novembro de 2025, o jornalista Moura Leite Netto, diretor da SENSU Comunicação, recebeu a jornalista Andresa Boni para uma conversa sobre carreira, jornalismo de escuta e o diálogo como eixo central de uma linha editorial. Com 18 anos de trajetória na TV Cultura, Andresa compartilhou experiências que atravessam diferentes formatos do telejornalismo, do factual ao documentário, sempre ancoradas na convicção de que ouvir com atenção é um gesto profissional, ético e político.


SENSU TALKS #45 – O Diálogo como Linha Editorial: a experiência de Andresa Boni

Logo no início do encontro, Andresa retomou o momento de escolha da profissão, ainda na adolescência, associando o jornalismo às afinidades que já se manifestavam na escola. “Quando terminei o ensino médio e comecei a pensar no vestibular, eu me perguntava: o que eu gosto de fazer? Gostava de língua portuguesa, de história, de literatura, de redação. Matemática e física já fugiam totalmente de mim. O caminho começou a se apresentar aí”, contou. Ela relembrou, com humor, a época em que fazia redações para colegas de classe. “Todo mundo reclamava que não gostava de redação. Eu fiz uma para mim e para uma amiga e, adivinha, a nota maior foi a dela, não a minha”, disse, rindo. A identificação com a escrita, somada ao interesse por comunicação e às experiências com teatro amador ainda na juventude, consolidaram a decisão. “Eu tive a sorte de me encontrar de cara. Depois que entrei no jornalismo, nunca pensei em outro caminho. Ainda bem, escolhi cedo, mas escolhi certo”.


A transição da universidade para o mercado se deu de forma marcada pela insistência e pela disposição para aprender. Formada pela Universidade Metodista de São Paulo, Andresa destacou a importância de buscar estágio ainda durante a faculdade. “É muito importante não esperar terminar o curso para começar o estágio. Sem experiência, fica difícil”, afirmou. Sua primeira oportunidade surgiu na Band, no programa Band Economia, um paradoxo para quem confessava fugir das exatas. “Eu fui para onde? Para a economia. Mas foi meu primeiro passo no jornalismo”. Quando o programa foi encerrado abruptamente, ela se recusou a aceitar a saída. “Eu era estagiária e falei: eu não vou embora”. Voltou no dia seguinte, passou pela portaria e começou a se fazer útil na redação. “Quem apresentava o jornal local era o José Paulo de Andrade. Ele me chamava de ‘clandestina’, sabendo que eu estava ali sem poder estar”, relembrou. Pouco depois, surgiu uma vaga e ela foi efetivada. “Foi assim que eu comecei saindo da faculdade. Um pouco na raça mesmo”.


A chegada à TV Cultura, em 2007, não veio acompanhada de qualquer expectativa de permanência longa. “De jeito nenhum eu imaginava estar há18 anos. Nem imaginava trabalhar lá”, confessou. A ligação afetiva com a emissora, entretanto, já existia desde a infância. “Quem é que não tem alguma memória da TV Cultura? Eu lembro de participar do Bambalalão com a escola. Lembro da minha mãe se arrumando para assistir ao Festa Baile”. Anos depois, a jornalista viveu uma inversão simbólica dessa memória ao entrevistar Aguinaldo Rayol, ídolo da mãe. “Ela quase teve um troço. São coisas que a profissão te proporciona”. Ao falar da Cultura, Andresa ressaltou o orgulho de integrar uma emissora pública. “Eu acredito muito no papel da TV pública, da TV educativa”.


A conversa ganhou densidade emocional a partir das perguntas enviadas por colegas de profissão que trabalharam (e ainda trabalham) com Andresa na TV Cultura. A jornalista Tatiana Bertoni, produtora e parceira de longa data, perguntou o que ainda lhe dá frio na barriga no jornalismo. A resposta foi imediata e reveladora. “Tudo dá frio na barriga. Eu estou aqui com frio na barriga. Porque você nunca sabe que rumo uma conversa vai tomar”. De acordo com Andresa, o nervosismo é sinal de vitalidade profissional. “Quando você perde o frio na barriga, perde a graça”. Ao comentar as transmissões ao vivo, foi ainda mais direta: “O ao vivo tem o fator surpresa. Às vezes as coisas mudam em cima da hora. Se perder isso, perde a essência”.


Esse sentimento ganhou contornos de medo real ao relembrar a cobertura das manifestações de junho de 2013, quando atuava como repórter do Jornal da Cultura. “Esse dia foi mais do que frio na barriga. Eu tive medo mesmo”, afirmou. Andresa descreveu a correria, a desorganização inicial das informações, o confronto policial e a sensação de ameaça constante. “Teve repressão policial, foi um salve-se-quem-puder. Eu me perdi do cinegrafista, corri da Consolação até a Doutor Arnaldo”. Naquele dia, decidiu se posicionar em um local mais seguro para entrar ao vivo e acabou questionada por isso. “Eu não fiquei no meio da confusão porque não dava. Eu não ia conseguir falar. Estaria desviando de gás lacrimogêneo e bala de borracha”. Guardou cartuchos como prova do que viveu. “Eu senti que aquilo ia ser um dia histórico.”


Ao refletir sobre os aprendizados técnicos e humanos de quase duas décadas na emissora, Andresa destacou a capacidade de se adaptar às condições disponíveis. “O técnico é você se virar com o que tem”, resumiu. Um episódio emblemático foi a produção de um documentário sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Sem possibilidade de viajar, a equipe buscou personagens alemães vivendo no Brasil. “A gente pensou: dá para contar essa história daqui”. O desafio se expandiu quando decidiram levar um carro símbolo da Alemanha Oriental, o Trabant, para o estúdio. “Parecia loucura. Mas achamos um colecionador, ele confiou e emprestou”. A experiência consolidou um lema pessoal. “O não a gente já tem. Vamos atrás do sim”.


No campo humano, a palavra central foi escuta. “O aspecto humano é o interesse real por quem está contando uma história. Seja quem for essa pessoa, ela sempre vai te ensinar alguma coisa”. Andresa exemplificou com uma reportagem sobre energia eólica no Ceará, em que uma conversa informal com um cinegrafista despertou o interesse pelo tatu-bola, espécie endêmica e ameaçada. “Era uma coisa que eu não sabia. Fiquei com aquilo na cabeça”. A curiosidade resultou em um projeto aprovado em edital e em uma série de encontros que ampliaram o repertório da equipe. “É um exemplo do quanto a conversa e a escuta com o outro podem render histórias fantásticas. Não tem limite”.


Esse princípio se desdobra diretamente no modo como Andresa conduz programas de entrevista. Ao falar do Opinião e de outros formatos de diálogo mais longo na TV Cultura, ela definiu a emissora como “um oásis”. “O foco não está exclusivamente na audiência, mas na relevância da informação.” Para ela, o tempo estendido permite aprofundar temas e trazer novas vozes. “Vamos ouvir gente nova, que não está na mídia ainda, mas tem tanto a dizer.” Nesse contexto, a prática de sempre oferecer ao entrevistado um espaço final aberto se tornou uma marca. “Se tem alguma coisa que faltou dizer, quer deixar um recado final? Porque o especialista é ele, não sou eu”.


Um exemplo emblemático foi o programa sobre síndrome de Down em que pessoas com deficiência intelectual falaram por si. “Eu pensei: por que não dar voz para essas pessoas? Elas devem ter muita coisa para ensinar”. O resultado transformou o programa. “Eles mudaram todo o panorama. Pensar um pouquinho fora da caixinha foi incrível”. Para Andresa, esse gesto resume o diálogo como linha editorial, em que a escuta redefine o rumo da narrativa.


As perguntas seguintes trouxeram reflexões sobre o presente do jornalismo. Diante da fake news, Andresa foi categórica. “Combater fake news não é entrar numa guerra de narrativa, é fortalecer o exercício da profissão, que é a credibilidade”. Ela alertou ainda para a confusão recorrente entre opinião e fato e defendeu a educação midiática desde a escola. “As pessoas precisam aprender a diferenciar notícia de opinião”.


As perguntas seguintes trouxeram reflexões sobre o presente do jornalismo em um ambiente de desinformação acelerada. Em vídeo, a produtora de TV Lígia Domeniche, que trabalhou quase dez anos ao lado de Andresa, quis saber como ela define o jornalismo hoje, diante das redes sociais e das fake news. Andresa foi categórica. “Fake news realmente é um desafio, porque elas se espalham numa velocidade impressionante. A internet contribuiu para isso e faz um estrago enorme”. Andresa reforçou que a resposta não é entrar em “guerra de narrativa”, mas fortalecer a credibilidade da profissão. “Combater fake news não é disputar narrativa, é fortalecer o exercício da profissão, que é a credibilidade”. Ela alertou também para a confusão recorrente entre opinião e fato e defendeu a educação midiática desde a escola. “As pessoas, muitas vezes, confundem opinião com notícia, com fato. A educação midiática deveria começar no banco da escola”.


O cuidado com temas sensíveis, especialmente saúde, ciência e cidadania, apareceu como responsabilidade central. “Alguns assuntos são densos, delicados, até tabus. Mas o primeiro passo para combater preconceito é falar sobre o assunto”. Segundo ela, a forma de falar é determinante. “Não é falar que vai dar ideia. Depende de como você fala e de quem você chama para falar.” Andresa destacou o aprendizado constante com especialistas e a atualização permanente de termos e abordagens. “Os termos mudam, a linguagem muda e a gente precisa aprender para não causar danos”.


Ao comentar sobre o Jornal da Cultura, Andresa ressaltou o formato analítico como antídoto ao jornalismo declaratório. “Você dá a notícia, mas depois vem a análise. Os comentaristas estão ali para dizer: não é bem assim”. Para ela, esse modelo reduz o impacto de discursos negacionistas e amplia a compreensão do público. “Apontar outros caminhos, concordar ou discordar, isso é fundamental”.


As perguntas enviadas por Erinaldo Clemente, da engenharia, e por Alexandre Tato, cinegrafista, trouxeram relatos de perrengues que alternaram tensão e humor. Além das manifestações de 2013, Andresa contou o episódio em que dormiu no último banco de um ônibus fretado durante uma gravação e foi “esquecida” pela equipe. “Eu apaguei. Quando acordei, o ônibus tinha ido embora. Sem celular, sem dinheiro”. A história virou folclore interno. “A equipe nunca esquece”.


O presente também esteve em pauta com o Linhas Cruzadas, programa que divide com o filósofo Luiz Felipe Pondé desde 2024. “Está sendo muito enriquecedor”, afirmou. “Me fez estudar filosofia de verdade”. Para ela, a intersecção entre jornalismo e outras áreas expande o pensamento. “A cada programa, eu penso: quanto mais sei, mais sei que nada sei”, filosofou.


Questionada sobre o que a move e o que almeja para o futuro, em pergunta enviada pelo editor de imagem Eduardo Felix, Andresa foi direta. “O jornalismo me move. As histórias, o contato com pessoas diferentes, a falta de rotina.” Ela resume o sentido da profissão na possibilidade de impacto. “Se a gente faz diferença para uma pessoa, missão cumprida”.


Ao falar sobre a presença feminina no jornalismo, Andresa reconheceu avanços, mas alertou para desigualdades persistentes. “Melhorou muito, mas ainda temos que suar mais do que os homens para provar competência”. Para ela, falar sobre equidade é parte do processo de transformação. “Ainda temos muito o que avançar”.


O episódio se encerrou com uma reflexão sobre o futuro do telejornalismo em um cenário de conteúdo sob demanda e circulação ampliada. “Hoje, você não tem mais controle sobre a informação. Um programa antigo pode voltar a circular porque alguém achou relevante”. Andresa entende que essa transformação amplia alcances, mas também exige rigor. “Todo mundo pode falar, mas nem toda opinião tem gabarito”.


O SENSU TALKS #45 reafirma o diálogo como fundamento do jornalismo de qualidade. A trajetória de Andresa Boni mostra que escutar não é um gesto passivo, mas uma escolha editorial que orienta perguntas, amplia vozes e constrói sentido público. Em tempos de ruído, polarização e excesso de opinião, sua experiência aponta que dar tempo ao outro, ouvir com atenção e abrir espaço para o que não estava previsto seguem sendo atos centrais e contemporâneos do fazer jornalístico.


Confira o episódio do SENSU TALKS na íntegra:



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