SENSU TALKS #44 – Comunicar em todas as plataformas: a experiência de Bruno Favoretto
- SENSU
- 1 de out. de 2025
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No episódio #44 do SENSU TALKS, transmitido em 1º de outubro de 2025, o jornalista Moura Leite Netto, diretor da SENSU Comunicação, recebeu o jornalista Bruno Favoretto para uma conversa sobre carreira, adaptação profissional e os dilemas contemporâneos da comunicação. Com mais de duas décadas de atuação, Favoretto construiu uma trajetória marcada pela circulação consistente entre diferentes plataformas (impresso, rádio, TV, digital, branded content e projetos audiovisuais ), sem perder aquilo que considera essencial, que é a identidade, apuração e responsabilidade ética.

Ao longo da live, o encontro percorreu a formação de Bruno como jornalista, seus anos na Editora Abril, a transição do impresso para o digital, os impactos das fake news na saúde, o crescimento do branded content, a chegada da inteligência artificial à comunicação e o modo como experiências pessoais radicalmente transformadoras moldaram seu olhar profissional. A conversa contou ainda com perguntas em vídeo enviadas por Anselmo Caparica (repórter da TV Globo), Hugo Politi (gestor de Comunicação), Alex Borba (designer), Renan Batista (designer) e Ricardo Guimarães (jornalista), colegas de diferentes momentos da carreira de Favoretto.
Logo no início, Bruno Favoretto retornou ao momento em que decidiu ser jornalista, escolha que antecede qualquer definição formal de carreira. “Desde muito antes do que aconteceu comigo em janeiro de 2000, eu já gostava de escrever, gostava de história, de línguas, de português. Sempre tive mais afinidade com esses temas. Eu recortava revistas, colava em folhas, era uma coisa quase artesanal. O jornalismo sempre esteve ali para mim, antes mesmo de virar profissão”, afirmou. Ele relembrou que o episódio de violência policial que o deixou paraplégico aos 17 anos não apagou esse desejo. Segundo ele, ao contrário. Tornou-o ainda mais urgente, sustentado pelo apoio familiar e pela convicção de que escrever e observar o mundo eram formas de existir.
Na sequência, Moura destacou a amplitude da passagem de Favoretto pela Editora Abril, onde atuou por 12 anos em títulos tão distintos quanto Manequim, Men’s Health, Recreio, Placar e Viagem e Turismo. “Foi na diferença que eu criei casca. Sair do rádio e ir para a Manequim, escrever para um público completamente distinto do meu universo, foi um choque. Mas isso cria uma experiência muito forte de apuração. Você aprende a entrar em assuntos que não domina, a estudar, a perguntar, a ouvir”, explicou. Segundo ele, navegar por editorias variadas amplia repertório e prepara o profissional para um mercado em constante mutação.
Ao falar sobre o impacto da transição do jornalismo impresso para o digital, Favoretto situou sua geração como uma espécie de ponte histórica. “A gente pegou tudo. Pegou a revista como objeto quase sagrado, como obra de arte. E pegou também o nascimento do digital, ainda tímido, quando havia até a crença de que o site não podia ser bom demais para não roubar leitor do impresso”, lembrou. Para ele, o advento do smartphone foi decisivo: “O impacto maior foi o telefone na mão das pessoas. Ali mudou tudo. A forma de consumir informação, a velocidade, a disputa pela atenção. E a gente ainda está em transição, em um momento de muita tormenta para as coisas se reorganizarem”.
A relação com o esporte, especialmente com o futebol, apareceu a partir da pergunta de Anselmo Caparica, parceiro de redação nos tempos de Placar. Favoretto falou com afeto da experiência e da amizade construída em um projeto difícil, mas formador. “A Placar sempre foi uma paixão. Eu narrei o Penta aos 19 anos, em uma rádio universitária. O futebol sempre permeou minha vida”, disse. Embora não descarte voltar ao jornalismo esportivo, pondera que hoje seu interesse se volta mais à dimensão sociológica do futebol do que ao hard news: “A lógica mudou muito. O acesso caiu, tudo vai para as redes social”.
O debate avançou para o presente do jornalismo multitarefa. Diante da pressão para atuar em várias frentes, Bruno foi direto ao reconhecer a instabilidade do momento. “É ingrato. Você precisa saber escrever, ter intimidade com câmera, entender redes sociais, lidar com métricas, tudo isso em uma profissão que nunca foi das mais bem remuneradas”, afirmou. Ainda assim, defendeu a centralidade da essência jornalística: “Não dá para abrir mão da apuração, das fontes confiáveis, do compromisso com fatos. Senão, você vira só mais um emissor de opinião”.
Essa discussão ganhou contornos ainda mais sensíveis com a pergunta de Hugo Politi sobre fake news na área da saúde. Favoretto alertou para riscos reais, especialmente com o avanço das tecnologias de manipulação de imagem e voz. “Eu vi um vídeo do Drauzio Varela vendendo uma pílula para curar artrite. Era inteligência artificial. Isso vai ficar cada vez mais sofisticado. Você se aproveita da credibilidade de um profissional para vender soluções fáceis para problemas difíceis. É assustador”, afirmou. Para ele, o jornalismo enfrenta o desafio de se manter relevante em um ambiente onde a mentira circula mais rápido do que a informação bem apurada, exigindo vigilância ética permanente.
Ao abordar o branded content, Favoretto recusou a ideia de que conteúdo institucional necessariamente seja vazio. “Um conteúdo institucional não precisa ser ruim. Ele pode trazer informação prática, serviço, ajuda real. Eu sou um jornalista romântico, mas entendo que o mercado mudou”, explicou. A experiência no A.C.Camargo Cancer Center foi citada como exemplo de equilíbrio possível: “Ali dava para falar de prevenção, diagnóstico precoce, tratamentos inovadores, sem ser um texto vazio. Dá para manter a essência jornalística”.
O episódio de violência que mudou sua vida, em 2000, surgiu novamente a partir da pergunta de Alex Borba. Desta vez, Bruno refletiu sobre como essa experiência redefiniu seu propósito. “Naquele momento, eu já saquei que não ia andar. Mas eu também saquei que precisava ficar vivo. E o jornalista é, por natureza, um indignado”, disse. A partir daí, passou a compreender sua atuação como representação coletiva. “Tudo que eu faço tem um peso a mais. Eu sinto que preciso ir muito bem para abrir portas para outros. Para que não se desconfie da capacidade de alguém pela condição física”.
Essa visão atravessa seu trabalho com turismo e acessibilidade, área em que se tornou referência. Para Favoretto, não se trata de relato pessoal, mas de jornalismo de serviço. “Existe uma diferença enorme entre jornalismo de turismo e ‘minhas férias’. Não é sair despejando clichês. É prestar serviço, informar de verdade”, afirmou. Comparando experiências no Brasil e no exterior, ele destacou como calçadas, transporte e espaços urbanos revelam o grau de cidadania de uma sociedade. “Uma calçada diz muito sobre um país. E dá para melhorar. Não é desculpa dizer que é antigo”.
A inteligência artificial, tema recorrente ao longo da conversa, reapareceu a partir da pergunta de Renan Batista. Bruno voltou à metáfora do “copiloto”, mas com reservas. “Pode ser útil, sim. Mas ainda é tudo muito incipiente. O problema é que trabalhos iniciais, técnicos, podem desaparecer. A pessoa pede um texto, um resumo e pronto. Então, a pergunta é: onde fica o jornalista nisso tudo?”, questionou. Para ele, a sobrevivência do jornalismo passa pelo estilo e pela assinatura intelectual: “Sempre gostei quando alguém dizia ‘só de ler dá para saber que foi você’. Isso é identidade”.
Ao final, ao ser questionado sobre conselhos a jovens jornalistas, Favoretto foi pragmático. “Dominar as redes é vital. Entender métricas, linguagem, distribuição. Senão, dificilmente sobrevive”. Mas deixou claro que essa adaptação não pode prescindir de valores. Escrita, apesar de todas as mudanças, segue como sua maior paixão. “É o que dá mais trabalho, mas também é o que mais satisfaz. Quando embala, sai da frente”.
O episódio #44 do SENSU TALKS reafirma que comunicar em todas as plataformas não significa diluir o jornalismo, mas expandi-lo. A trajetória de Bruno Favoretto mostra que é possível transitar entre linguagens, mercados e tecnologias, mantendo coerência, compromisso público e identidade autoral. Em um cenário de ruído informacional e rápidas transformações, sua experiência funciona como um lembrete de que a comunicação continua sendo, acima de tudo, uma ferramenta de impacto social, escuta e responsabilidade.
Confira o episódio do SENSU TALKS na íntegra:







