Aprendemos alguma coisa com a pandemia? Uma reflexão sobre a cobertura midiática da polilaminina
- SENSU
- há 18 horas
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A pergunta não é retórica. É um teste de memória recente e, sobretudo, de responsabilidade. Há poucos anos, acompanhamos a ascensão de um negacionismo barulhento, a defesa de terapias sem eficácia comprovada, como a cloroquina e a disseminação de discursos antivacina que custaram vidas. Em contraponto ao negacionismo, repetiu-se à exaustão que era preciso confiar na ciência, respeitar seus métodos e compreender seus tempos. Passado o auge da crise sanitária, cabe perguntar se esse aprendizado se consolidou ou se foi apenas circunstancial.

A recente repercussão em torno da polilaminina, uma substância em investigação no contexto da regeneração do sistema nervoso e com potencial aplicação no tratamento de lesões medulares, sugere que ainda estamos distantes de uma resposta confortável. A cobertura midiática sobre o tema ganhou escala nacional, impulsionada especialmente após sua apresentação no Roda Viva, da TV Cultura. Parte da repercussão foi marcada por forte engajamento nas redes sociais e por uma expectativa elevada do público, refletida também no tom inicial do programa.
Ao longo da entrevista, no entanto, os questionamentos se intensificaram desde as primeiras intervenções dos jornalistas, ganhando densidade progressivamente até alcançar seu ponto mais crítico na discussão sobre a ausência de grupo controle. Esse elemento, central para qualquer validação científica, foi determinante para qualificar o debate e colocar em perspectiva os limites dos resultados apresentados.
É preciso pontuar que não se trata de desqualificar a pesquisa, tampouco de desencorajar a inovação científica. Também não se trata de ignorar o papel central das universidades públicas na produção de conhecimento e na formação de pesquisadores, nem de relativizar a necessidade permanente de investimento em ciência. Pelo contrário: trata-se de reconhecer que a ciência não se constrói por atalhos e que a comunicação sobre ciência deve refletir esse princípio, com rigor, responsabilidade e compromisso com o interesse público.
No caso específico, estamos diante de um estudo que sequer iniciou a fase clínica em humanos e cujo artigo científico ainda se encontra em formato de preprint (em 2024), ou seja, sem revisão por pares. Esses dois elementos já exigiriam cautela redobrada na forma como os resultados são apresentados ao público. Posteriormente, viu-se que havia erros na escrita e em dados sensíveis de um dos gráficos. O trabalho ainda não foi publicado por um periódico científico.
A tentação de antecipar conclusões é compreensível em um ambiente que valoriza a novidade e a velocidade. No entanto, o chamado rito científico, que inclui etapas como validação independente, ensaios clínicos controlados e revisão por pares, não é um entrave burocrático. Trata-se de um mecanismo de proteção contra erros, vieses e falsas promessas.
Essa dimensão foi abordada nas entrevistas que tive a feliz oportunidade de realizar para o Science Arena, veículo que atuo como repórter freelancer. Em uma das entrevistas, a cardiologista e pesquisadora Karla Espírito Santo, head de Estudos Clínicos Descentralizados e Modelos Inovadores de Trials da Academic Research Organization (ARO) do Einstein Hospital Israelita, reforça que estudos sem grupo controle adequado não permitem estabelecer relações causais confiáveis. Sem essa base, qualquer afirmação de eficácia se torna, no mínimo, precipitada.
Na mesma linha, em outra entrevista, o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coautor do estudo, o neurocirurgião Paulo Louzada, reconhece que, sem um desenho metodológico robusto, incluindo comparação com grupo controle, não é possível afirmar que a substância funcione. Trata-se de uma posição técnica, coerente com os princípios mais elementares da pesquisa científica.
Alertar para esses pontos, no entanto, não é “torcer contra” a pesquisa. Ao contrário. O meu desejo como jornalista de ciência é que toda investigação científica avance e produza resultados positivos, com impacto real na vida das pessoas. O problema é que, na prática, esse caminho é muito mais complexo do que a narrativa pública costuma sugerir. A maior parte dos estudos que apresentam bons resultados em modelos animais, como camundongos, não consegue reproduzir o mesmo desempenho nas fases clínicas em humanos. É justamente por isso que o rito científico precisa ser respeitado, com todas as suas etapas, validações e filtros. Não se trata de frear a ciência, mas de garantir que ela avance com segurança, consistência e credibilidade.
Ignorar esses aspectos ou relativizá-los na cobertura jornalística equivale a desmontar o próprio sistema que garante a confiabilidade do conhecimento científico. A imprensa ocupa uma posição singular nesse ecossistema. É ponte entre a produção científica e a sociedade. Mas ser ponte não significa ser megafone.
Quando jornalistas tratam resultados preliminares como descobertas consolidadas ou deixam de contextualizar limitações metodológicas, contribuem, ainda que involuntariamente, para a construção de expectativas irreais. Em saúde, isso não é um detalhe. É um risco. E todo jornalista, atuando em seu veículo, usando as mídias sociais ou conversando com família e amigos, é um formador de opinião. Não pode ser torcedor!
No episódio do Roda Viva, a bancada de entrevistadores foi formada por Carol Marcelino, jornalista especializada em saúde; Fabiana Cambricoli, repórter especial do Estadão; Jairo Marques, jornalista da Folha de S.Paulo; Lúcia Helena de Oliveira, colunista do UOL; Mariana Varella, editora-chefe do portal Dráuzio Varella e doutoranda em Saúde Global pela Faculdade de Saúde Pública da USP; e Rafael Garcia, repórter de Ciência do jornal O Globo. A ampla expertise desses jornalistas de referência fez com que os questionamentos evoluíssem desde os primeiros momentos da entrevista, ganhando profundidade e consistência ao longo do programa. Esse movimento progressivo foi essencial para qualificar o debate público e oferecer à sociedade uma leitura mais crítica e fundamentada sobre o tema.
Em suas abordagens, a ciência não foi tratada como espetáculo, mas como processo, com suas incertezas, limites e exigências. Esse contraste evidencia um ponto central. Não basta dar visibilidade à ciência. É preciso qualificá-la. A postura institucional também merece reflexão. A nota divulgada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro foi insuficiente diante da magnitude da repercussão. Em um cenário de ampla exposição midiática, a ausência de um posicionamento mais robusto, didático e transparente contribui para ampliar ruídos e não para esclarecê-los.
Comunicar ciência exige responsabilidade compartilhada. Pesquisadores, instituições e jornalistas têm papéis distintos, mas interdependentes. Quando um desses elos falha, o sistema como um todo se fragiliza.
A pandemia deixou marcas profundas, mas também lições valiosas. Uma delas é que a confiança na ciência não é um dado automático. Ela é construída e pode ser rapidamente erodida. Ao tratar resultados preliminares com euforia, sem o devido rigor, corremos o risco de repetir erros recentes. E, pior, de alimentar o mesmo ambiente de desinformação que tanto criticamos.
A ciência avança por evidências, não por narrativas sedutoras. E o jornalismo, quando cumpre seu papel, não acelera esse processo. Ele o ilumina com precisão. Se aprendemos algo com a pandemia, este talvez seja o momento de demonstrar. Caso contrário, estaremos apenas aguardando a próxima crise para, mais uma vez, redescobrir o óbvio. Lições como fosfoetanolamina e cloroquina, por exemplo, não podem simplesmente ir se acumulando. Precisando resultar em aprendizado, de fato.
Moura Leite Netto, diretor da SENSU Comunicação e doutor em Ciência com ênfase em Oncologia pelo A.C.Camargo Cancer Center.



