SENSU CAST 42 – Comunicação em saúde: o que muda entre o consultório e a mídia
- SENSU
- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
A diferença entre falar com pacientes, dialogar com pares acadêmicos e se comunicar com a mídia (e como essas transições exigem escolhas conscientes de linguagem, voz e escuta) esteve no centro do episódio 42 do SENSU CAST, produção da SENSU Comunicação dedicada ao jornalismo e à comunicação corporativa em saúde, ciência e educação. Apresentado pelo jornalista e doutor em Ciências Moura Leite Netto, diretor da SENSU, o episódio traz uma reflexão conceitual e exemplos práticos sobre o papel da comunicação qualificada na construção de confiança e compreensão pública.

Desde a abertura, o programa delimita três ambientes com dinâmicas próprias: o consultório, marcado pela relação direta e pelo acolhimento; os espaços de pesquisa, onde a precisão técnica é central; e a mídia, que demanda informação acessível, verificada e adequada ao tempo disponível. Cada contexto exige organização das ideias, intenção comunicativa, consciência vocal e preparo para lidar com públicos heterogêneos, competências que nem sempre são contempladas na formação tradicional de profissionais da saúde e da ciência.
Para aprofundar a discussão, o episódio recebe Leny Kyrillos, fonoaudióloga formada pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina, com mestrado e doutorado em Ciências dos Distúrbios da Comunicação. Desde 2000, Leny atua na Rede Globo e na Rádio CBN, onde é comentarista da coluna semanal Comunicação e Liderança. Professora convidada da UNIFESP e do MBA da XP-IBMEC, além de palestrante do Communication Academy, em Portugal, ela é autora e organizadora de livros sobre voz, comunicação e liderança, com atuação destacada em media training nas áreas da saúde e da ciência.
Logo no início da conversa, Leny explicou que o media training vai além do domínio do conteúdo. Ao comunicar, constrói-se percepção, um processo rápido, muitas vezes inconsciente, que influencia diretamente a reação do jornalista e do público. Elementos não verbais, como o olhar, a postura e a articulação, podem gerar confiança ou desconfiança antes mesmo que a mensagem seja plenamente compreendida. Um exemplo citado por ela mostrou como a falta de contato visual de um porta-voz levou um repórter a encurtar uma entrevista, reduzindo o espaço concedido à fala do especialista.
Os desafios na comunicação em saúde
Outro eixo central do episódio foi a tradução da linguagem técnica. Em ambientes midiáticos, o público é heterogêneo (do leigo ao especialista) e a simplicidade, longe de empobrecer o conteúdo, é condição para que conceitos complexos sejam compreendidos. Leny defendeu o uso de palavras habituais, frases curtas, voz ativa e afirmações diretas, evitando siglas e termos técnicos sem explicação. Segundo ela, a capacidade de “traduzir” é justamente o que diferencia os porta-vozes mais procurados pela imprensa daqueles que, apesar do sólido conhecimento, não conseguem se fazer entender.
A pressão das entrevistas ao vivo e do tempo cronometrado também foi abordada. Para esses contextos, a preparação prévia é decisiva: definir mensagens-chave, organizá-las por ordem de importância e apresentar primeiro o essencial, deixando exemplos e dados como complemento. Do ponto de vista vocal, Leny destacou estratégias simples, como controlar a respiração, articular bem as palavras e evitar a fala acelerada, que ajudam a transmitir segurança e fácil entendimento, mesmo sob estresse.
A consciência da própria fala e o receio do julgamento dos pares apareceram como obstáculos frequentes, especialmente entre médicos e cientistas. Segundo Leny, é comum que o tecnicismo funcione como uma “couraça” para reduzir a exposição, mas isso cria barreiras à compreensão. Definir o objetivo da comunicação — informar o público e disseminar conhecimento — é fundamental para ajustar o discurso e superar o medo de simplificar.
As transformações recentes no jornalismo, aceleradas pela pandemia, também entraram em pauta. Entrevistas por videoconferência, gravações remotas e a integração entre rádio, televisão e plataformas digitais ampliaram o alcance dos especialistas, mas trouxeram novos cuidados. Leny detalhou aspectos do ambiente, da iluminação, do enquadramento da câmera, da roupa e da postura corporal, reforçando que “tudo comunica” e que esses elementos influenciam a credibilidade do porta-voz.
O episódio avançou ainda para temas como escuta ativa, acolhimento e a humanização da relação médico-paciente. Leny alertou para a perda progressiva da escuta nas consultas, com interrupções cada vez mais precoces e foco excessivo em telas e exames. Para ela, a boa comunicação pressupõe expressão e demonstração: ouvir com atenção, olhar nos olhos e verbalizar acolhimento são atitudes que já iniciam o tratamento e podem ser adaptadas também para atendimentos virtuais.
A discussão sobre sotaques e marcas regionais trouxe uma perspectiva atualizada: mais do que neutralizar a fala, o desafio é evitar ruídos que desviem a atenção do conteúdo. Pequenas marcas regionais são bem-vindas e contribuem para a autenticidade, desde que não se sobreponham à mensagem. O “triunfo da autenticidade”, como definiu Leny, reflete uma comunicação mais plural e próxima do público.
Na parte final, a convidada abordou cuidados com a voz, lembrando que o Dia Mundial da Voz, celebrado em 16 de abril, teve origem no Brasil. Evitar fumo e álcool em excesso, manter hidratação, cuidar da alimentação, do sono e do uso adequado da voz são medidas essenciais não apenas para comunicadores profissionais, mas para qualquer pessoa que utiliza a fala como instrumento de trabalho e interação social.
Ao encerrar, o episódio reforça que a comunicação eficaz é hoje uma necessidade estratégica para profissionais da saúde e da ciência. Em um cenário de ampla circulação de informação, saber se expressar, escutar e adaptar a mensagem aos diferentes contextos é parte indissociável do cuidado, da ética e da responsabilidade social.
O SENSU CAST está disponível nas principais plataformas de áudio e no YouTube. Produzido pela SENSU Comunicação em parceria com o Estúdio Banca Podcast, o programa apresenta mensalmente conversas sobre comunicação aplicada à saúde, à ciência e à educação.
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Ficha técnica
Produção: SENSU Consultoria de Comunicação e Banca de Conteúdo
Roteiro e apresentação: Moura Leite Netto
Edição: J. Benê
Direção: Luciana Oncken
Nós da SENSU Consultoria de Comunicação, tendo como parceiro o Estúdio Banca Podcast, produzimos podcasts e videocasts de diferentes temas das áreas de saúde, ciência e educação. Se interessou em produzir o seu podcast conosco? Envie uma mensagem para contato@sensucomunicacao.com.br. E não se esqueça de ouvir os episódios anteriores e seguir nossos perfis. O SENSU CAST está nas principais plataformas de podcast, todos os meses com um episódio novo.







