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Ciência e mídia precisam ter velocidade, não pressa

Os dados são muito significantes, mas é apenas um estudo. Essa é a avaliação feita pelo diretor executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, em coletiva de imprensa1 na quarta, dia 17, ao ser questionado sobre a pesquisa clínica anunciada na véspera pela Universidade de Oxford, que mostrou resultados que apontam para redução de mortalidade entre os pacientes em estado grave de Covid-19 que fizeram uso de dexametasona.


A dexametasona é um corticóide usado desde a década de 1960, de baixo custo e acessível. É o primeiro a se demonstrar um agente capaz de evitar mortes pela doença, que não só mudou a rotina da população, mas que, infelizmente, já causou a morte de mais de 450 mil pessoas mundo, sendo mais de 50 mil delas no Brasil. Os dados do estudo britânico contra a doença do Sars-CoV-2, portanto, são muito bem-vindos.


Uma informação importante é que esse estudo, segundo a metodologia anunciada em press release2 (o trabalho completo ainda não foi publicado), reuniu mais de 20 mil pacientes, que randomizados para o novo tratamento e grupo controle. Os benefícios se mostraram tão claros que o protocolo foi concluído e os autores agilizam a publicação. A mídia, claro, fez sua parte ao dar ressonância a essa boa notícia.


Em meio às boas novas, algumas ressalvas são válidas. Como bem disse um dos autores, Peter Horby, no comunicado distribuído para a imprensa e reproduzido em reportagem de sexta, 19, na Folha de S.Paulo3, “o benefício é claro e amplo em pacientes que estão doentes o bastante para necessitar de tratamento com oxigênio”.


O mesmo cenário não se aplica aos casos leves e, tampouco, é um medicamento que previne a infecção. Essa mensagem precisa estar clara em todas as matérias. Caso contrário, haverá uma corrida desenfreada às farmácias, como já visto com a hidroxicloroquina nesta pandemia.


OMS PARABENIZA, MAS PEDE CAUTELA


Em sua fala na coletiva do dia 17, Michael Ryan afirmou que é necessário aguardar a publicação dos resultados completos para saber como, quando, para quem e com qual dosagem, o medicamento deve ser ministrado. “Não é hora de correr. Ainda precisamos ver os dados finais e ajustar as diretrizes clínicas”, explica.


A observação foi feita na mesma reunião na qual Tedros Adhanon, diretor geral da OMS, abriu com a boa notícia de que “este é o primeiro tratamento que se mostra capaz de reduzir a mortalidade em pacientes com Covid-19 que necessitam de suporte de oxigênio ou ventilador. São ótimas notícias e parabenizo o governo do Reino Unido, a Universidade de Oxford e os muitos hospitais e pacientes no Reino Unido que contribuíram para esse avanço científico que salvou vidas”, destaca Adhanon


Tanto o anúncio entusiasmado quanto a análise mais comedida, fazem sentido. Por um lado, os dados preliminares do estudo Avaliação Randomizada de Terapia da Covid-19 (RECOVERY) são de fato promissores: um total de 2104 pacientes receberam, além do cuidado padrão, dexametasona uma vez por dia durante dez dias (por via oral ou por injeção intravenosa) e foram comparados com 4321 pacientes que foram randomizados para receber os cuidados habituais, mostrando que entre os pacientes em ventilação mecânica, o novo tratamento mostrou reduzir a mortalidade em cerca de um terço.


O trabalho também mostra que para os pacientes que necessitavam apenas de oxigênio, a mortalidade foi reduzida em cerca de um quinto. Os autores afirmam que, dada a importância desses resultados para a saúde pública, estão trabalhando para publicar todos os detalhes o mais rápido possível.


O posicionamento mais cauteloso de Michael Ryan, da OMS, também se explica pela necessidade de haver a publicação deste estudo em uma revista científica, com criteriosa revisão por pares e que outros trabalhos sustentem as evidências apresentadas. Com isso, seria amenizado o risco de haver novos atropelos da ciência e da mídia, que acabaram gerando ruídos na Comunicação com a sociedade nas últimas semanas. Dentre os tropeços recentes estão o estudo com erros metodológicos publicado na renomada The Lancet e a errática declaração da OMS sobre não haver risco de transmissão do novo Coronavírus por indivíduos assintomáticos.


A revista The Lancet4, fundada ainda no século 19, mais precisamente em 1823, publicou um estudo que reuniu 96 mil pessoas internadas com Covid-19 que haviam tomado hidroxicloroquina ou cloroquina e que haviam apresentado maior risco de arritmia e morte em comparação com pacientes que não fizeram uso do medicamento. O trabalho teve inconsistências observadas, a empresa responsável pelos dados, Surgisphere, não forneceu o banco de dados para que uma auditoria ocorresse e o periódico decidiu pela retratação, anulando assim a validade da pesquisa.


A OMS que, baseada em estudos anteriores e, principalmente, a partir deste, havia decidido cancelar as pesquisas com hidroxicloroquina, decidiu retomar. Esta semana a suspensão, por sua vez, se tornou definitiva, pois dados subsequentes evidenciaram a ineficácia do medicamento contra a Covid-19, mas, neste momento, a imagem da mídia e da ciência, inclusive de uma das revistas científicas mais importantes do mundo, teve a sua imagem arranhada diante da sociedade, alimentando teorias que tanto conspiram contra a evidência científica.


Neste cenário de pandemia, a ciência precisa ser veloz, como é, aliás, capaz de ser. A urgência nem sempre permite os mais completos desenhos metodológicos e o rito científico é acelerado. Por sua vez, velocidade não pode ser confundida com pressa. A sociedade anseia por respostas positivas e a mídia precisa ser cuidadosa na busca por seus furos, evitando assim alardes em torno, por exemplo, dos vermífugos ivermectina e nitazoxanida (Annita), que estiveram nos holofotes em determinados momentos desta pandemia. O público está em prontidão para agarrar as boas novas com todas as forças. Se houver a necessidade depois de ponderar, vai ser difícil que queiram desagarrar.


Moura Leite Netto - Jornalista e sócio da SENSU




Referências bibliográficas:


1 - WHO. Press conference: 06.17.2020. <https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019>. Disponível em 19 jun 2020.

2 – Oxford University. <http://www.ox.ac.uk/news/2020-06-16-low-cost-dexamethasone-reduces-death-one-third-hospitalised-patients-severe>. Disponível em 19 jun 2020.

3 – Folha de S.Paulo. <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/hospitais-ja-usam-dexametasona-para-tratar-doente-grave-de-covid.shtml>. Disponível em 19 jun 2020

4 - Mehra MR, Desai SS, Ruschitzka F, Patel AN. RETRACTED: Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis [published online ahead of print, 2020 May 22] [retracted in: Lancet. 2020 Jun 5;:null]. Lancet. 2020;S0140-6736(20)31180-6.


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