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O comunicador de ciência tem de ir aonde o povo está

Nesta terça, 30, é celebrado o Dia da Mídia Social (Social Media Day), uma plataforma essencial para que profissionais de agências, redações, influenciadores digitais e demais comunicadores levem informação de qualidade sobre os mais variados temas. Porém, esta data pode ser também um importante momento de reflexão: qual tipo e qualidade de informação sobre saúde e ciência, ainda mais nesses tempos de pandemia, está chegando à população.

Para trilhar o caminho para esta resposta, vale saber onde o povo está. Quase 8 entre 10 domicílios no Brasil (79,1%) tem acesso à internet, sendo que a telefonia móvel celular é utilizada por quase a totalidade (92,2%) destes lares. O mesmo levantamento, divulgado pelo IBGE em abril de 2020, mostra que em quase metade dos domicílios com internet (45,5%) o celular é o único meio utilizado para se fazer a conexão1.


Esse amplo acesso na palma da mão se reflete na disseminação de notícias pelas mídias sociais, principalmente de saúde. É o que mostra o relatório de Mídia Digital (Digital News Report 2019), feito pelo Instituto Reuters em parceria com a Universidade de Harvard. Com uma amostra de 75 mil usuários de internet de 38 países, foi feito um recorte específico da população brasileira. A conclusão foi que dois terços (66%) dos brasileiros usam a mídia social como fonte de notícias. Além disso, 61% costumam compartilhar notícias pelas mídias sociais ou e-mail e 38% comentam notícias em perfis na rede social ou em portais2.


Ao filtrar pelo Google Trends as editorias mais buscadas por usuários brasileiros em 2019, observei que a recordista foi a editoria de saúde, seguida por educação, política, esportes, economia e ciência. Obviamente, ao trocar o filtro de 2019 pelo primeiro semestre de 2020, o interesse por saúde, por conta da Covid-19, foi ainda mais destacado.


No entanto, embora os internautas do país demonstrem amplo interesse por saúde, o mesmo não se aplica à ciência, nem mesmo nesse momento no qual a agenda da mídia está monotemática. As buscas por ciência no Google Trends durante a pandemia foram menos frequentes, por exemplo, que as buscas por assuntos relacionados ao esporte.

Voltando ao relatório de Mídia Digital, o recorte pela amostra brasileira mostra que mais da metade dos entrevistados compartilha notícias pelo Facebook (54%) e WhatsApp (53%). Outro forte disseminador é o YouTube (42%). Em quarto lugar aparece o Instagram (26%). Mais de um terço (36%) comentam notícias nas mídias sociais ou sites. Também chama a atenção o fato de 51% terem afirmado ouvir ao menos um podcast por mês.


A população, portanto, está maciçamente nas mídias sociais e é por lá que as notícias são mais disseminadas. O problema é que esse conteúdo, como sabemos, é o que retroalimenta uma quantidade incontável de fake news. Nas mídias sociais e aplicativos de mensagens instantâneas são nocivas as informações que deturpam estudos, distorcem mensagens, inventam achados, propagam teorias da conspiração e disseminam a desconfiança na atuação de cientistas, de órgãos responsáveis e de comunicadores. Colocam nos divulgadores científicos um rótulo de pessoas que não se preocupam em ajudar a salvar a humanidade.


Ao contrário das fake news, a verdade nem sempre é tão agradável aos olhos dos usuários de rede social. Com uma narrativa que traz soluções fáceis e imediatas para todos os problemas, as falsas notícias se destacam diante da necessidade da ciência em cumprir o seu rito de construção de evidências. É mais fácil acreditar que um medicamento qualquer, disponível em farmácia, curará todos os pacientes com Covid-19 e que há uma conspiração científica mundial para que o tratamento em questão não chegue às pessoas. Essa mentira é mais conveniente do que dar ouvidos aos cientistas e entender que o desenvolvimento de um medicamento ou até mesmo da tão esperada vacina exige fases de pesquisa clínica. Exige tempo. Apesar dos constantes cortes de investimentos, a ciência brasileira avança, mas não na mesma velocidade da disseminação do vírus. Por isso é que as políticas de contenção são fundamentais e os países que adotaram as medidas mais eficazes conseguiram achatar a curva e reduzir o número de casos e mortes.


E como é possível mudar este jogo contra as notícias falsas? Dando continuidade aos muitos exemplos positivos. Vemos hoje um grande esforço das universidades em estruturar seus departamentos de Comunicação, assim como empresas públicas e privadas contratando agências de Comunicação preocupadas em difundir informação de qualidade para os mais variados públicos. Paralelamente, muitos cientistas estão se apropriando de seu lugar de fala e entendendo que o conhecimento adquirido será bem mais valioso quando compartilhado com todos.


É fundamental que seja construída uma ponte entre cientistas e sociedade e, nesse caminho, o profissional de Comunicação é essencial. Juntos, são comunicadores de ciência capazes de mostrar o quanto a ciência, aparentemente tão complexa, está presente na vida de todos, mesmo que a maioria da população não se dê conta disso.


Com um trabalho conjunto e planejado, será cada vez mais comum vermos cientistas sendo fontes de matérias jornalísticas e participando de programas formadores de opinião. Assim como será cada vez mais comum também o público acessar, refletir, entender, assimilar e compartilhar conteúdo com embasamento científico. Teremos, de fato, motivos de sobra para celebrar o dia da mídia social.

Moura Leite Netto - Jornalista e sócio da SENSU

Referências bibliográficas

1 – Acesso à internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal: 2018. Local: Rio de Janeiro Editor: IBGE Ano: 2020. 12p.

2 – Newman N, Fletcher R, Kalogeropoulos A, Levy D, Nielsen RK. Reuters Institute Digital News Report 2019. Avaliable from: https://bit.ly/3eJq9y7. [2020 jun 28]

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